OS TEMPOS SELVAGENS DA JUVENTUDE - Parte 2
A rivalidade entre turmas de bairros era uma tradição no Rio de Janeiro. Morador da Barra da Tijuca, Renzo e seus amigos tiveram uma série de confrontos com a turma de Jacarepaguá. Em uma destas vezes as coisas quase acabaram em morte.
Renzo (que estava apaixonado por uma menina moradora do bairro vizinho) recebera um telefonema, convidando-o para uma festa na qual a garota estaria presente. Na noite marcada ele foi pra lá de carro com um grupo de amigos.
O endereço ficava numa rua sem saída. Chegando ao local Renzo e seus colegas perceberam que não havia festa nenhuma: era uma emboscada. Eles contornaram o carro e viram um grupo de garotos fechando o caminho. Um deles estava armado e começou a disparar. O carro de Renzo acelerou para fugir. Ao passar pelos rapazes de Jacarepaguá, vários tiros atingiram o veículo. Felizmente nenhum dos ocupantes foi alvejado.
O incidente o perturbou profundamente.
Semanas depois, Renzo foi informado que aqueles garotos estavam numa festa no condomínio Riviera. Ele virou-se para Vera (sua mãe) e disse:
“Aqueles caras que atiraram na gente estão aqui perto. Eu vou lá. Você me empresta o carro ou vai comigo?”
“Eu vou com você”, foi a resposta de sua mãe.
Renzo reuniu alguns amigos e rumaram pro condomínio, com Vera ao volante.
ENTREVISTADOR: Então você foi com ele pra essa briga?
VERA: Ele iria de qualquer maneira. Estar junto era minha forma de protegê-lo.
Chegando ao local, “a porrada estancou”. No meio da confusão, um segurança do condomínio sacou uma arma. Vera correu até o homem e tirou o revólver de suas mãos: “Não vai apontar uma arma pros garotos!” Vinte minutos depois, a sirene de uma viatura de polícia foi ouvida. Vera gritou pra que Renzo e seus amigos voltassem pro carro. Na fuga, Renzo ainda saltou pela janela e atacou sozinho o grupo rival. Vera teve que sair e arrastar seu filho de volta ao veículo. Cruzaram o carro de polícia na estrada. “Eles chegaram exatamente no momento em que nós saíamos do condomínio. Imagine ter que explicar aquilo pra polícia: eu, a MÃE, levando o filho pra brigar... Mas se eu não estivesse lá, aquele segurança com a arma podia ter causado uma tragédia.”
RENZO: As pessoas atribuem meu caráter à família Gracie, mas fui moldado em grande parte pela família Simões. Eu tinha uns tios incríveis que passavam longas temporadas com a gente na Barra. Um deles era o tio Dadá (Darley Augusto Silva e Souza, casado com sua tia Ana Maria), que lia pra gente antes de dormir: histórias de aventuras que enchiam nossa cabeça de sonhos... Muitas vezes nós dormimos embalados pelo tio Dadá, contando histórias e cantando pra gente. É assim que você torna alguém inquebrável: dando amor pra criança! Tinha também o tio Paulo, uma figura fora de série. Sempre dizia pra não aceitarmos apelidos: “Se alguém te der um apelido, dê um soco na cara do sujeito. Acabou o apelido!” Uma vez um primo nosso chegou em casa chorando, dizendo que um cara grande na escola não deixava ele jogar bola com os outros meninos no recreio. Meu tio Paulo o pegou pela mão e levou até o quintal. Lá encontrou um galho em forma de Y; depois foi à farmácia e comprou uma tira elástica de soro. Num mercadinho arrumaram um saco de bolas de gude. Tio Paulo passou aquela tarde com meu primo, ensinando a usar a atiradeira, praticando a mira... No dia seguinte ficaram na porta da escola esperando o garoto mais velho sair. Quando o cara apareceu meu primo correu até ele: o primeiro tiro pegou na testa. O valentão caiu gritando e, ao tentar fugir, foi atingido por vários disparos de bolinhas de gude. Nunca mais ninguém impediu meu primo de jogar bola no recreio. Mais uma história do tio Paulo: ele pegou malária numa viagem pra Amazônia. Caiu de 95 pra menos de 70 quilos... Todo dia vinha um padre lhe dar a extrema-unção: “Devo a minha recuperação àquele padre”, ele contou. “A vontade que eu tinha de levantar da cama e dar uma porrada na cara dele me manteve vivo!” (Ri)
(continua)
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